domingo, 3 de abril de 2011

VENTO LESTE NA ESCALA VIRTUAL

Não dá pra ser ingênuo. Na sociedade capitalista e industrializada a obra de arte (como tudo, aliás) é produto industrial e, portanto, o objetivo do seu “fabricante” (o artista) e seus “parceiros” (a indústria cultural) é o “mercado”. Não há nada mais de graça num mundo em que tudo é mercadoria ou, no mínimo, mercantilizável. É por isso que existe uma grande dificuldade entre os artistas, produtores artísticos, teóricos da arte, meios de comunicação etc. em atribuir maior ou menor valor artístico a uma obra de arte. No campo da música, que é o que nos interessa aqui, todos os dias aparece alguém tentando classificar e hierarquizar as obras de arte. Por isso estão sempre aparecendo expressões como “MPB de qualidade”, “samba de raiz” ou “verdadeira música sertaneja” separar música “boa” de música “ruim”. Aliás, já falei sobre isso na mensagem anterior.

É claro que a questão não é nada simples. Eu também tenho meus “critérios”, nem um pouco científicos – se é que eles existem –, que são os seguintes: em que Fulano pensou ao compor a canção X? O que ele queria provocar em mim, ouvinte, seu destinatário final? Como entre mim e ele existe um atravessador, o “mercado”, nem sempre ele, autor, é capaz de me “enxergar” e, eventualmente, pode se confundir, achando que eu sou o “mercado”. Em outras palavras, o autor pode achar que está compondo para o “mercado” ouvir e não pra mim, uma pessoa, um cidadão, outro ser humano. Afinal, é do “mercado” que vem sua remuneração (ou pelo menos é isso que pode parecer ao compositor mais distraído) e não de mim. Por outro lado, que critérios objetivos eu, um simples mortal, posso ter para testar se o autor ao escrever sua canção estava pensando em mim, um abstrato ser do outro lado das caixas de som ou dos fones de ouvido, ou no “mercado”, que ele reconhece através dos contratos que assina ou do que vê no seu extrato bancário? Como disse, a questão não é nada simples.

Como meus critérios não são nada científicos, a única forma de eu saber o que é a “verdadeira” música, a “de qualidade”, enfim, a que, ao adquiri-la no “mercado”, provoca em mim algo mais do que a sensação de ser apenas mais um produto para a minha “despensa cultural”, mais um “sabonete musical”, é o método da tantativa-e-erro. Guiado por um “instinto” não muito criterioso, tento identificar através dos meus ouvidos, da minha sensibilidade e da minha inteligência, aliada indispensável, mas cada vez valendo menos no “mercado”, qual foi a intenção do autor. Gosto de pensar que a obra de arte é tanto melhor quanto a maior intenção do autor de conversar comigo, me contar histórias, cutucar as minhas memórias, dialogar com a minha sensibilidade, estimular o meu bom gosto, enfim, compartilhar comigo sua visão de mundo. Quando mais sintonia houver nesse “diálogo” maior será o retorno, inclusive em dinheiro, para o autor. O “mercado” entraria aí apenas como mediador e não como gigolô, atravessador, agiota de idéias e sensações. Sonho? É claro que sim! Mas, como diziam o Lô Borges, o Márcio Borges e o Milton Nascimento já no distante 1972, “porque se chamavam homens também se chamavam sonhos – e sonhos não envelhecem”. Ainda gosto de pensar que são os sonhos que movem o mundo.

Mas qual a razão de essa longa e caótica reflexão sobre a qualidade da música nesses nossos tempos difíceis e complicados? Por causa de uma obra de arte chamada Vento Leste, um álbum duplo maravilhoso do cantor, compositor e instrumentista angrense PC Castilho, do qual tenho a honra de ser amigo. Não ouviu ainda? Nunca ouviu falar? Conselho de amigo: corre atrás! Em Vento Leste todos aqueles meus critérios meio atabalhoados, mas sinceros, estão presentes.

video
No vídeo, as canções Ciranda do mundo, do Edu Krieger, e Pra você, mãe, do próprio PC, apresentada no programa Sr. Brasil, do Rolando Boldrin, na TV Cultura, de São Paulo, no dia 14/04/2009. Com o PC estão o Naif Simões na percussão, o Marcílio Figueiro no violão, o Carlinhos Rabha no baixo e o Marcelo Caldi o acordeom.


Quando ponho pra tocar o CD As Canções sinto como se estivesse conversando com PC sobre as raízes africanas (dele, minhas, nossas). Ou como se estivesse vendo e ouvindo o som dos saveiros que cruzam o mar de Angra, de onde ele veio e onde vivo e trabalho. Ou como se compartilhássemos uma cerveja na já extinta Adega de Angra (ou Bar do Léo) ao som do também extinto Hot Bit, programa noturno do Mauro Peres na Rádio Costazul, nos inesquecíveis anos 90 angrenses. As canções do PC falam comigo, me dizem coisas, chamam a minha atenção, me convidam a pensar, a viajar no Barco de música junto com a turma do Zangareio, a brincar com Yana ou a “conversar” com D. Maria José através do xote Pra você, mãe. Tudo isso através da voz, do canto, da melodia, da execução apurada, entrosada e dedicada de cada instrumento. Aí me vem a certeza de que o CD foi feito pra mim, mesmo que eu nem tenha passado pela cabeça do PC ao compor nenhuma as canções que compôs ou ao escolher as de outros compositores. Isso porque na cabeça dele seguramente havia, na outra ponta da obra, gente real, concreta, de carne e osso e não um abstrato “mercado”. Tudo o que eu disse aqui vale também para o outro CD, Instrumental, que faz par com As Canções, que me faz voltar as minhas ancestrais raízes afro-mineiras com Olhar futuro, Saídas e bandeiras ou Cafezais sem fim.

E nem cheguei a falar do pessoal que o acompanha, da melhor estirpe: o grande amigo e grande baixista (não necessariamente nessa ordem) Carlinhos Rahba, também angrense; a minha querida Nilze Carvalho dividindo com ele Pelourinho, o grande Marcílio Figueiró, Mart’nália, Edu Krieger, Itamar Assière, Naif Simões, Fabiano Salek... tanta gente!

Você pode se perguntar se não estou me rasgando em tanto elogio porque o autor do álbum é meu amigo. Evidentemente, ser amigo já é, sim, um bom critério nesses tempos tão impessoais, apáticos e insensíveis. Ajuda na hora de me fazer prestar mais atenção, tomar mais cuidado com o que estou escutando, ter um pouco mais de delicadeza e respeito para com o autor e com a obra. Mas se a música que ele faz não me dissesse nada eu poderia simplesmente me omitir, não fazer nenhum comentário, deixar pra lá. O PC Castilho nem iria saber que eu tinha ouvido os CDs e não gostado. Nem você, que me dá a honra e a alegria de ler as coisas que eu escrevo.

É preciso confessar que há muita música que me provoca sensações semelhantes às que tentei descrever aqui e para a qual nem sempre escrevo algum comentário. Às vezes por falta de tempo, às vezes por distração etc. acabo deixando passar em branco. Podia ter comentado o CD da Nilze Carvalho, Estava faltando você, de 2007, ou o recente O que é meu; ou os excelentes Na Lapa e Caçuá, do violinista franco-“carioca” Nicolas Krassik, o da cantora cubana-brasileira Marina de la Riva, o maravilhoso trabalho da linda Roberta Sá (todo mundo, aliás, tocando na Escala Virtual...). Nem sempre faço tudo que quero. Mas nunca é tarde pra falar de coisas boas. E é por isso que eu recomendo fortemente que você fique atento à programação da Escala Virtual, que toca direto o Vento Leste e outros trabalhos do PC Castilho, inclusive como membro da excelente banda Zangareio, angrense de corpo e alma, que em 2011 completa longos e vitoriosos 20 anos de existência, que merecem ser comemoradíssimos. (Qualquer dia escrevo um texto dedicado só ao Zanga...). Obrigado, PC!

5 comentários:

  1. Cara esse evento em Angra deve ter sido ótimo. Todos (que tem bom e criterioso ouvido) estão comentando!

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  2. Grande Moby... Show de bola a postagem... O CD Vento Leste realmente é brincadeeeira... O velho Pizzy Brown é foda mesmo... Também tenho prazer em tê-lo como amigo e ter tocado com ele nos anos 80... Como você disse... Época da Adega de Angra ao som de HotBit... Comparando com a postagem anterior essa seria a ANGRA DE QUALIDADE que já não existe mais... Abraçããão nego velho!!!

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  3. Parabéns Alberto Moby pelo segundo artigo postado para nós ouvintes da Escala Virtual. Vento Leste traduz tudo a sensibilidade de um grande ouvinte e conhecedor nato do assunto. Isso eu nunca tive dúvida pois sei que você é extremamente competente em tudo aquilo que faz. Abraço de todos os amigos da equipe Escala Virtual a nossa rádio na Web!

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  4. Parabéns pelo texto , Moby.
    Maravilha! PC e Vento Leste, tudo de bom, mesmo.
    Obrigado pelas palavras referentes ao Zanga. Vinte anos de amizade e "colegolismo" com pessoas como você. Valeu, meu caro!
    Parabéns 'Escala Virtual"!!!...

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  5. ambos são gênios; quem vislumbra a obra e quem faz a obra, vantagem intelectual e cumplicidade aberta a todos nós pobres mortais. Valeu Moby, valeu PC castilho.

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