Pra quem foi criado ao som da MPB como eu, poucas pessoas chegaram tão perto da unanimidade como o compositor e cantor Chico Buarque. Numa época em que, no Brasil, a música foi uma das formas mais criativas (e também mais eficazes) de luta contra a ditadura militar, a quase unanimidade em torno da figura do Chico tinha também um sabor de resistência à opressão.
Mas Chico Buarque não foi apenas o cantor da indignação de uma parcela significativa dos brasileiros contra o autoritarismo dos militares. Ele era também um intérprete sensível dos sentimentos humanos mais nobres, sem nunca descambar para a pieguice, para a breguice ou, como dizíamos na época, para a cafonice. Ele encantava a todos nós, homens e mulheres, embora fosse evidente o derretimento maior e mais desavergonhadamente assumido da mulherada. Por causa disso havia uma espécie de consenso conformista entre nós, os homens, de que “todo homem brasileiro é um corno do Chico Buarque”, tal era o derretimento de nossas namoradas, noivas, esposas, amantes etc. pelos olhos cor de ardósia, pela voz sensual (ainda que com pouca extensão e até meio desafinada), pelas melodias encantadoras e letras ao mesmo tempo sensíveis e inteligentes desse terrível sedutor da MPB.
Mas aí o tempo passou, a MPB foi perdendo espaço para outros ritmos e interesses, como o axé, o pagode, o sertanejo, o funk e tantas outras novidades mais ou menos musicais que foram aos poucos ganhando espaço na mídia a partir, principalmente, do final da década de 1990, depois da saudável explosão do rock nacional, nos anos 80, celebrando o fim da ditadura e tentando apontar algum rumo para o Brasil da “nova” república. No meio disso tudo, junto com outros grandes da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Alceu Valença, a voz de Chico Buarque foi ficando perdida no tempo, saindo de moda e da mídia para apenas ocupar o lugar que lhe cabe na história, certo?
Errado! Chico Buarque, com seus sessenta e poucos anos, continua cantando e encantando, inclusive muita gente que, quando ele fazia sucesso na mídia, ouvia a Xuxa, a Turma do Balão Mágico, o Trem da Alegria ou ainda nem era plano nas cabeças e corações de futuros pais e mães. Veja, por exemplo, o que diz a cantora Fernanda Porto, uma das mais conhecidas da nova geração de cantores e cantoras do que às vezes vem sendo chamado de “Nova MPB”, na edição da Revista MTV de janeiro de 2005: “Não tenho essa coisa de ficar dizendo: ‘Ai, olha só que conquista’... Mas é claro que depois que eu fui ouvir falei: ‘Caramba, é mesmo, Chico Buarque fravou em drum’n’bass’. Até pensei: ‘Vou ligar pros meus amigos!’ (risos)”. Pra quem não sabe, drum’n’bass é uma tendência da música popular contemporânea, bastante dançante e por isso muito bem aceita no ambiente das discotecas, que costuma misturar voz, violão ou guitarra, baixo e samplers eletrônicos para criar ou reciclar canções. No Brasil, Fernanda Porto é talvez a mais famosa representante dessa tendência, misturando o bit acelerado da discoteca com MPB. O resultado é, no mínimo interessante. Mas o mais interessante é ouvi-la cantando Roda viva, do Chico, com a levada drum’n’bass, acompanhada do próprio, num encontro de gerações e tendências cujo resultado é um diálogo bastante interessante. A música está no CD Giramundo, de Fernanda, gravado em 2004.
Mas Fernanda Porto não foi a única a ter a companhia de Chico Buarque. Nos últimos anos, a presença de Chico Buarque em discos de cantores da nova geração da música brasileira tem sido uma constante. Ele está, por exemplo, no DVD Pra Se Ter Alegria, da cantora Roberta Sá, de 2009, que foi gravado ao vivo. Das quatro faixas bônus gravadas em estúdio, a canção Mambembe, do começo da carreira de Chico, que ele e Roberta Sá cantam acompanhados pelo violão de Marcello Gonçalves, do excelente Trio Madeira Brasil, está imperdível. A própria Roberta conta estava dentro de um restaurante quando viu Chico passando na rua e saiu em desabalada carreira correndo atrás dele para convidá-lo para a gravação. Coisa de tiete, que deu um excelente resultado.
Outro artista que não perdeu a oportunidade de reverenciar Chico Buarque foi seu xará Chico César, que o convidou para gravar com ele, em 2002, a provocativa canção Antinome, no CD Respeitem Meus Cabelos, Brancos. Vale a pena conferir letra, música e interpretação desse encontro, verdadeiro convite à reflexão: “Chamo-te pelo antinome, pai/ Quando o invisívelSome e se esvai/ Em vinho que não bebo/ Em pão que não comerei jamais”. Imagino que o César tenha se inspirado no Buarque na hora de compor e por isso decidiu convidá-lo para esse encontro musical.
Outro convite que produziu um resultado ao mesmo tempo curioso e saboroso foi o da cantora Marina de La Riva. Chico participou de seu CD de estreia, de 2007, dividindo com ela a canção Ojos malignos, um antigo bolero do cubano Juan Pichardo que no álbum foi transformado em samba. Marina é filha de pais cubanos. Seu pai era o herdeiro de um canavial em Cuba quando aconteceu a revolução liderada por Fidel Castro e Che Guevara, em 1959. Com medo do futuro, sua família resolveu se mudar para os EUA, onde continuou envolvida com a plantação de cana-de-açúcar. Depois de algum tempo e alguns insucessos econômicos, decidiram se mudar mais uma vez e vieram parar na região canavieira de Campos dos Goytacazes, onde Marina nasceu, cresceu e aprendeu a cantar música brasileira, deixando escondida em algum canto da memória e do coração a forte tradição cultural e musical cubana. Só depois de adulta é que ela teve coragem (ou discernimento) para resgatar seu lado cubano. Mas, como a música brasileira já estava mais do que enraizada, no disco ela acabou realizando uma ousada e interessante mistura, colocando ritmo de samba onde antes havia um bolero, introduzindo canto e ritmo cubano onde antes havia música brasileira. E lá no meio dessa mistura, parece que com muito gosto, estava Chico Buarque, convidado de honra.
Chico ainda aparece numa emocionante homenagem do sambista Diogo Nogueira, filho do não menos importante João Nogueira, em seu DVD de 2010 Sou Eu Ao Vivo. No show Chico divide com Nogueira a canção Homenagem ao malandro. Logo em seguida, Chico e Diogo Nogueira, acompanhados também de Ivan Lins e do magnífico bandolinista Hamilton de Holanda (que não é parente do Chico mas que todo mundo precisa conhecer), cantam a canção Sou eu, composição de Chico e Ivan feita para Diogo. A platéia, composta de gente, na média, bem mais jovem do que Chico e Ivan e que tem como hábito o consumo de sambas mais populares, assim mesmo vai ao delírio. Há algo de mágico em Chico Buarque, não?
Chico também está no CD de estreia da cantora paulista Rita Gullo. Detalhe interessante é que Rita Gullo é filha do grande escritor Ignacio de Loyola Brandão, autor de muito sucesso nos anos duros da ditadura militar, quando teve um de seus livros, Zero, proibido pela censura em 1975 e só liberado em 1979. Foi Brandão quem fez a aproximação entre a filha e Chico Buarque. Formada em História e em Artes Cênicas, parece que o repertório de seu primeiro álbum tem um toque dessas duas escolhas profissionais. Nele Chico divide com ela a canção A mulher de cada porto, dele e de Edu Lobo, que Chico já havia dividido com Gal Costa em 1980. O peso dessa responsabilidade parece não ter incomodado Rita, que tem uma belíssima voz e que escolheu um repertório de primeira qualidade, que vale a pena conferir.
É preciso falar também da participação de Chico Buarque no segundo CD da cantora curitibana Thaís Gulin, ôÔÔôôÔôÔ (o título é este mesmo, rs), publicado este ano, com a canção Se eu soubesse, do próprio Chico. Thaís vem sendo apontada como a nova namorada de Chico Buarque, o que tem provocado a inveja e a raiva de algumas fãs – e não só, necessariamente, as menos jovens, as que já passaram, digamos, da casa dos cinqüenta... Ela evita falar no assunto e sobre Chico ela apenas diz, em entrevista para a revista Quem, que “[...] tinha gravado duas músicas dele no meu primeiro álbum e ele me mandou um e-mail elogiando. Continuamos a nos falar e, um dia, ele me enviou a música”, sem dar pistas sobre o possível romance.
E já que o assunto são os, digamos, laços de família, Chico participou também, no ano passado, do CD Diminuto do genro Carlinhos Brown, não como cantor, mas declamando um poema do próprio Brown no meio da canção Mãos denhas. É provável que o parentesco entre os dois tenha facilitado a participação de Chico no disco de Brown – além do mais, lendo um poema do genro. Mas é inegável que, sogro ou não, Brown só o convidou porque tal participação agrega prestígio ao álbum – aliás, extremamente delicado e muito diferente do que Carlinhos Brown tem produzido ao longo de sua carreira já relativamente longa. Afinal, mais do que sogro, o convidado é Chico Buarque, que, além de cantor e compositor, é também escritor, e dos bons.
Finalmente, lembro o excelente CD de estreia da cantora mineira Paula Santoro, de 2005, em que ela canta com Chico a difícil Sem fantasia, feita para a peça teatral Roda Viva e gravada originalmente em 1968, em dueto com a irmã Cristina, depois regravada com Maria Bethânia, ao vivo, em 1975. Sua interpretação não fica devendo nada a Cristina, então uma quase adolescente, nem a Bethânia, já consagrada nos anos 70.
O que marca mesmo é a reverência ao grande Chico Buarque, que vem funcionando como uma espécie de pé de coelho de artistas mais jovens, ao mesmo tempo que atesta o vigor e a beleza de sua música, que atravessa décadas agradando gregos e troianos – e, claro, as gregas e troianas – tanto ou mais do que seus famosos olhos azuis. Na verdade, acho que Francisco Buarque de Hollanda deveria ser tombado pelo IPHAN e pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade. E pergunto: onde é que você pode se encontrar e se encantar com as canções de Chico Buarque, na sua própria voz, na voz de outros artistas, em interpretações solo ou em dueto com outros cantores? Claro, só na Escala Virtual.
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quarta-feira, 8 de junho de 2011
A MAGIA DO ENCONTRO III: CHICO BUARQUE
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sábado, 21 de maio de 2011
A MAGIA DO ENCONTRO II: OS ANOS 70
Continuando nossa conversa, acredito que foi na década de 1970 que um cantor convidar outro para dividir com ele a gravação de uma música ou LP se tornou um hábito na música brasileira. Esse hábito, para sorte de quem gosta de música, ultrapassou os limites dessa década tão difícil e tão importante na história do Brasil, chegando até os nossos dias.
Alguns desses encontros foram memoráveis. Já citei aqui o registro do show Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, de 1972, realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador. Esse show antológico, aliás, foi uma resposta dos dois cantores/compositores à suposta rivalidade entre eles – Chico representando uma vertente mais “tradicional” da MPB, enquanto Caetano representava uma linha mais “antenada” (perdoem o anacronismo). E, mais do que deles, da gravadora Philips/Polygram, que tinha interesse direto nisso. Algumas faixas, como os dois cantando Você não entende nada, do Caetano, e Cotidiano, do Chico, são pra nunca mais esquecer. Ou os dois cantando Bárbara, de Chico e Ruy Guerra, composta para a peça Calabar, proibida pela Censura – assim como trechos da letra da música, que a gravadora abafou mixando aplausos artificiais por cima da gravação original. Quem nunca ouviu não sabe o que está perdendo...
Lembrei também outro encontro memorável, entre Chico e Maria Bethânia, em 1975, no disco Ao Vivo, registrado na temporada de shows no Canecão, no Rio de Janeiro, naquele ano. No disco os dois dividem as canções Olê olá, Sinal fechado, Sem fantasia, Quem te viu, quem te vê, Vai levando e Noite dos mascarados, além de interpretarem individualmente várias outras canções antológicas, como a maravilhosa versão Sonho impossível, feita por Chico e Ruy Guerra, do sucesso de Elvis Preley The impossible dream (The quest), de J. Darion e M. Leigh.
Mas muitos outros álbuns gravados em dupla fazem parte dessa época mágica da história da MPB, em que parece que a terrível repressão política e policial imposta pelo regime militar era em parte amenizada pela imensa criatividade e grande produção dos artistas e, ao mesmo tempo, consumo significativo por parte dos fãs. É dessa época, por exemplo, o antológico disco Elis & Tom, em que os dois dividem os vocais em apenas duas canções, a fantástica Águas de março e Soneto da separação, embora Tom esteja presente em todas as demais canções com seu piano encantado. Além de Águas de março, uma verdadeira obra-prima, vale a pena destacar também a interpretação de Elis para Chovendo na roseira. Duvido que você, ao ouvir a canção, não consiga “ver”, cinematograficamente, a chuva “real” caindo sobre uma viçosa roseira. Se bobear, sente até o cheiro das rosas vindo na voz de Elis.
Outro grande disco de encontro da década de 1970 é Doces Bárbaros, reunindo Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, gravado em 1976, como resultado de uma série de shows realizados pelos quatro baianos em comemoração aos dez anos de carreira. Nele foram registrados clássicos como Esotérico, Pé quente, cabeça fria e Um índio. A turnê dos Doces Bárbaros também foi registrada em vídeo – inclusive a prisão de Gilberto Gil e do baterista Chiquinho Azevedo, em Florianópolis, por posse de maconha, o que fez com que a turnê, que havia começado no Anhembi, em São Paulo, fosse suspensa. Na verdade, pouco depois, o show foi retomado e bateu o recorde de bilheteria do Canecão (RJ), onde permaneceu por dois meses. Em seguida, foi lançado o álbum.
Mais um grande disco da época é o antológico Clube da Esquina, reunindo Milton Nascimento, Lô Borges e dezenas de amigos, os “sócios” do “clube”. Gravado em 1971, quando Lô tinha apenas 19 anos de idade e Milton, 31, o disco tinha ainda a participação de Beto Guedes em algumas canções, além de um time de músicos de primeira qualidade. Canções até hoje presentes na memória coletiva e regravadas tanto por grandes estrelas quanto por gente da nova geração da MPB estavam lá, como a belíssima Cais, recentemente regravada por Kátia B, no CD Espacial, de 2007. Ou como Tudo que você podia ser, de Lô Borges e seu irmão Márcio Borges, gravada por Milton; ou, ainda, Um girassol da cor do seu cabelo, também já registrada por Skank, Ira!, Nenhum de Nós e Vanessa da Matta, entre tantos outros, só pra ficar nas gravações mais recentes; Clube da Esquina nº 2 e Nada será como antes, verdadeiros hinos à esperança. Não tenho medo de exagerar e de dizer que se Milton ou Lô, por alguma razão, tivessem sido obrigados a encerrar a carreira depois desse álbum, que registrou 21 canções, só com ele já teriam gravado seus nomes na história da música popular brasileira.
Outros grandes encontros aconteceram nos anos 70 do século XX. Registro aqui, ainda, o Ao Vivo dos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, de 1978, registro da temporada carioca de shows da dupla, no Canecão. Esse espetáculo, que começou informal e despretensioso em Salvador, acabou tomando corpo e foi levado a várias capitais brasileiras. No disco Caetano e Bethânia interpretam canções que marcaram ou remetiam à infância de ambos (Número um e Adeus, meu Santo Amaro), sucessos da época (Falando sério, sucesso de Roberto Carlos, João e Maria e Maninha, ambas de Chico Buarque) e ainda momentos onde cada um cantava sucessos do outro (Carcará, com Caetano, e O leãozinho, com Bethânia). Também lançaram a canção Tudo de novo, que resumia o espírito daquela reunião.
Outro antológico é o álbum Gil Jorge Oxum Xangô, de 1975, reunindo Gilberto Gil e Jorge Ben (que na época ainda não era Jor...). Não é exagero dizer que esse disco é “revolucionário”. Munidos, cada um, de um violão na mão e muitas idéias na cabeça, Gil e Jorge Ben, numa época em que a guitarra imperava, decidiram fazer tudo em casa, no improviso, movidos apenas pela imaginação e sabe-se lá o que mais na cabeça, se é que me entendem. Gil naquela época era um cosmopolita que misturava Jimmi Hendrix e a Banda de Pífanos de Caruaru. Ben, com o seu A Tábua de Esmeralda, havia entrado na fase que ele autodenominou de “alquimia musical”. Muito dessas experiências estão nessa jam session que mistura samba, jongo, afoxé, misticismo, Gonzagão e João da Baiana. Ben dá a largada com a melodia e a música, Gil o segue fazendo o contracanto e as demais vocalizações, floreando o ritmo de Jorge, numa sintonia e um entrosamento análogos ao jazz — esse é o espírito da coisa, a mecânica celeste, o puro improviso, pura invenção, música total. Gil Jorge Ogum Xangô é um testamento e uma experiência e um encontro histórico sem precedentes de dois músicos fantásticos, de uma forma que não se repetiria nunca mais.
Finalmente, nesta relação improvisada de grandes encontros musicais dos anos 70 do século passado, novamente Gilberto Gil, desta vez acompanhado da dama do Rock Brasil, Rita Lee. Falo do álbum Refestança, de 1977. Ao que tudo indica, o objetivo do show que originou o álbum era recolocar no mercado as carreiras musicais dos dois artistas, que no ano anterior haviam sido presos por posse de drogas. O show contava com uma apresentação dos dois cantando É proibido fumar, sucesso de Roberto e Erasmo Carlos, que ganhava outras conotações devido ao conturbado ano anterior. O álbum tem como curiosidades o fato de ser o único registro ao vivo da banda de Rita Lee na época, a Tutti-Frutti, além de marcar a entrada de seu marido, Roberto de Carvalho, na banda. No álbum estão registradas canções já consagradas de cada um dos dois artistas, além de uma versão bem humorada de Get back, dos Beatles, renomeada como De leve. É disco que não pode faltar em nenhuma antologia da música brasileira, já que junta dois grandes artistas, duas bandas (a Tutti-Frutti, de Rita Lee, e a Refavela, de Gil), dois estilos, dois talentos num grande show de criatividade.
Essa conversa não tem fim, mas por enquanto fico por aqui. Outras postagens virão e nelas ainda vou falar de muitos outros encontros. E você, fique de ouvidos atentos porque a Escala Virtual toca tudo isso. Aliás, onde mais você poderia encontrar tanta música boa reunida?
Alguns desses encontros foram memoráveis. Já citei aqui o registro do show Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, de 1972, realizado no Teatro Castro Alves, em Salvador. Esse show antológico, aliás, foi uma resposta dos dois cantores/compositores à suposta rivalidade entre eles – Chico representando uma vertente mais “tradicional” da MPB, enquanto Caetano representava uma linha mais “antenada” (perdoem o anacronismo). E, mais do que deles, da gravadora Philips/Polygram, que tinha interesse direto nisso. Algumas faixas, como os dois cantando Você não entende nada, do Caetano, e Cotidiano, do Chico, são pra nunca mais esquecer. Ou os dois cantando Bárbara, de Chico e Ruy Guerra, composta para a peça Calabar, proibida pela Censura – assim como trechos da letra da música, que a gravadora abafou mixando aplausos artificiais por cima da gravação original. Quem nunca ouviu não sabe o que está perdendo...
Lembrei também outro encontro memorável, entre Chico e Maria Bethânia, em 1975, no disco Ao Vivo, registrado na temporada de shows no Canecão, no Rio de Janeiro, naquele ano. No disco os dois dividem as canções Olê olá, Sinal fechado, Sem fantasia, Quem te viu, quem te vê, Vai levando e Noite dos mascarados, além de interpretarem individualmente várias outras canções antológicas, como a maravilhosa versão Sonho impossível, feita por Chico e Ruy Guerra, do sucesso de Elvis Preley The impossible dream (The quest), de J. Darion e M. Leigh.
Mas muitos outros álbuns gravados em dupla fazem parte dessa época mágica da história da MPB, em que parece que a terrível repressão política e policial imposta pelo regime militar era em parte amenizada pela imensa criatividade e grande produção dos artistas e, ao mesmo tempo, consumo significativo por parte dos fãs. É dessa época, por exemplo, o antológico disco Elis & Tom, em que os dois dividem os vocais em apenas duas canções, a fantástica Águas de março e Soneto da separação, embora Tom esteja presente em todas as demais canções com seu piano encantado. Além de Águas de março, uma verdadeira obra-prima, vale a pena destacar também a interpretação de Elis para Chovendo na roseira. Duvido que você, ao ouvir a canção, não consiga “ver”, cinematograficamente, a chuva “real” caindo sobre uma viçosa roseira. Se bobear, sente até o cheiro das rosas vindo na voz de Elis.
Outro grande disco de encontro da década de 1970 é Doces Bárbaros, reunindo Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, gravado em 1976, como resultado de uma série de shows realizados pelos quatro baianos em comemoração aos dez anos de carreira. Nele foram registrados clássicos como Esotérico, Pé quente, cabeça fria e Um índio. A turnê dos Doces Bárbaros também foi registrada em vídeo – inclusive a prisão de Gilberto Gil e do baterista Chiquinho Azevedo, em Florianópolis, por posse de maconha, o que fez com que a turnê, que havia começado no Anhembi, em São Paulo, fosse suspensa. Na verdade, pouco depois, o show foi retomado e bateu o recorde de bilheteria do Canecão (RJ), onde permaneceu por dois meses. Em seguida, foi lançado o álbum.
Mais um grande disco da época é o antológico Clube da Esquina, reunindo Milton Nascimento, Lô Borges e dezenas de amigos, os “sócios” do “clube”. Gravado em 1971, quando Lô tinha apenas 19 anos de idade e Milton, 31, o disco tinha ainda a participação de Beto Guedes em algumas canções, além de um time de músicos de primeira qualidade. Canções até hoje presentes na memória coletiva e regravadas tanto por grandes estrelas quanto por gente da nova geração da MPB estavam lá, como a belíssima Cais, recentemente regravada por Kátia B, no CD Espacial, de 2007. Ou como Tudo que você podia ser, de Lô Borges e seu irmão Márcio Borges, gravada por Milton; ou, ainda, Um girassol da cor do seu cabelo, também já registrada por Skank, Ira!, Nenhum de Nós e Vanessa da Matta, entre tantos outros, só pra ficar nas gravações mais recentes; Clube da Esquina nº 2 e Nada será como antes, verdadeiros hinos à esperança. Não tenho medo de exagerar e de dizer que se Milton ou Lô, por alguma razão, tivessem sido obrigados a encerrar a carreira depois desse álbum, que registrou 21 canções, só com ele já teriam gravado seus nomes na história da música popular brasileira.
Outros grandes encontros aconteceram nos anos 70 do século XX. Registro aqui, ainda, o Ao Vivo dos irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, de 1978, registro da temporada carioca de shows da dupla, no Canecão. Esse espetáculo, que começou informal e despretensioso em Salvador, acabou tomando corpo e foi levado a várias capitais brasileiras. No disco Caetano e Bethânia interpretam canções que marcaram ou remetiam à infância de ambos (Número um e Adeus, meu Santo Amaro), sucessos da época (Falando sério, sucesso de Roberto Carlos, João e Maria e Maninha, ambas de Chico Buarque) e ainda momentos onde cada um cantava sucessos do outro (Carcará, com Caetano, e O leãozinho, com Bethânia). Também lançaram a canção Tudo de novo, que resumia o espírito daquela reunião.
Outro antológico é o álbum Gil Jorge Oxum Xangô, de 1975, reunindo Gilberto Gil e Jorge Ben (que na época ainda não era Jor...). Não é exagero dizer que esse disco é “revolucionário”. Munidos, cada um, de um violão na mão e muitas idéias na cabeça, Gil e Jorge Ben, numa época em que a guitarra imperava, decidiram fazer tudo em casa, no improviso, movidos apenas pela imaginação e sabe-se lá o que mais na cabeça, se é que me entendem. Gil naquela época era um cosmopolita que misturava Jimmi Hendrix e a Banda de Pífanos de Caruaru. Ben, com o seu A Tábua de Esmeralda, havia entrado na fase que ele autodenominou de “alquimia musical”. Muito dessas experiências estão nessa jam session que mistura samba, jongo, afoxé, misticismo, Gonzagão e João da Baiana. Ben dá a largada com a melodia e a música, Gil o segue fazendo o contracanto e as demais vocalizações, floreando o ritmo de Jorge, numa sintonia e um entrosamento análogos ao jazz — esse é o espírito da coisa, a mecânica celeste, o puro improviso, pura invenção, música total. Gil Jorge Ogum Xangô é um testamento e uma experiência e um encontro histórico sem precedentes de dois músicos fantásticos, de uma forma que não se repetiria nunca mais.
Finalmente, nesta relação improvisada de grandes encontros musicais dos anos 70 do século passado, novamente Gilberto Gil, desta vez acompanhado da dama do Rock Brasil, Rita Lee. Falo do álbum Refestança, de 1977. Ao que tudo indica, o objetivo do show que originou o álbum era recolocar no mercado as carreiras musicais dos dois artistas, que no ano anterior haviam sido presos por posse de drogas. O show contava com uma apresentação dos dois cantando É proibido fumar, sucesso de Roberto e Erasmo Carlos, que ganhava outras conotações devido ao conturbado ano anterior. O álbum tem como curiosidades o fato de ser o único registro ao vivo da banda de Rita Lee na época, a Tutti-Frutti, além de marcar a entrada de seu marido, Roberto de Carvalho, na banda. No álbum estão registradas canções já consagradas de cada um dos dois artistas, além de uma versão bem humorada de Get back, dos Beatles, renomeada como De leve. É disco que não pode faltar em nenhuma antologia da música brasileira, já que junta dois grandes artistas, duas bandas (a Tutti-Frutti, de Rita Lee, e a Refavela, de Gil), dois estilos, dois talentos num grande show de criatividade.
Essa conversa não tem fim, mas por enquanto fico por aqui. Outras postagens virão e nelas ainda vou falar de muitos outros encontros. E você, fique de ouvidos atentos porque a Escala Virtual toca tudo isso. Aliás, onde mais você poderia encontrar tanta música boa reunida?
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sexta-feira, 6 de maio de 2011
A MAGIA DO ENCONTRO I: OS PIONEIROS
É da tradição da música brasileira o encontro entre cantores. Já na década de 1930 alguns encontros entre cantores fizeram grande sucesso. Naquela época as gravações eram feitas em discos de goma-laca, substância produzida por um inseto conhecido como kerria lacca, encontrado nas florestas da Índia e da Tailândia. Pelo tipo de textura desse material e pelas dimensões dos discos, só cabia uma música em cada lado (cerca de 3 minutos) e por isso, caso o encontro de dois cantores agradasse o público – bem restrito, nessa época, diga-se de passagem –, a experiência era repetida em novas gravações. Lembro aqui as duplas Francisco Alves e Mário Reis e Jonjoca e Castro Barbosa. Essa dupla de cantores registrou, em junho de 1931, um disco com os sambas Sinto falta de você e A cana está dura, ambos compostos pelo próprio Jonjoca. Na verdade, parece que o disco foi uma resposta da gravadora, a Victor, à Odeon, gravadora que desde setembro do ano anterior fazia enorme sucesso com gravações da dupla formada por Francisco Alves e Mário Reis. Até novembro de 1933 foram lançados 11 discos (22 músicas) de Jonjoca e Catro Barbosa.
A dupla “concorrente”, Mário Reis e Francisco Alves, era mais interessante por duas características. A primeira era a diferença de timbre e de colocação da voz dos dois cantores. Enquanto Francisco Alves era conhecido por seu vozeirão, que mais lembrava um cantor de ópera, Mário Reis tinha uma voz suave e de pouco fôlego, tendo sido considerado por muitos estudiosos como precursor e inspirador do jeito de cantar de João Gilberto e, portanto, como uma espécie de “avô” da bossa nova. A segunda é que os dois cantores já eram bastante famosos – considerando-se os padrões da época – quando gravaram juntos uma série de discos entre 1930 e 1932.
Francisco Alves é considerado até hoje pelos especialistas em música brasileira como um dos maiores fenômenos da história da música popular brasileira, tendo sido uma peça-chave no mercado fonográfico nacional. Ele soube aproveitar como nenhum outro artista uma época em que as técnicas de gravação começavam a se aprimorar no Brasil, levando à popularização do disco, do rádio e do samba como estilo musical. Pra se ter uma ideia da importância de sua carreira musical, estima-se que entre a década de 1930 e 1953, quando morreu em um acidade de carro, chegou a vender 5 milhões de discos. Por causa de sua voz possante, ele ficou conhecido como o “Rei da Voz”. Seu prestígio era tão grande que ele gravava ao mesmo tempo para a gravadora Odeon e para a Parlophon, usando o pseudônimo Chico Viola. Para quem não está ligando o nome à pessoa, foi Francisco Alves quem gravou, em 1939, a famosa Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, considerada como uma espécie de hino nacional não oficial do Brasil, conhecida no mundo todo.
Mário Reis, por sua vez, ficou conhecido por criar um estilo de cantar diferente do que havia no Brasil até então. Ao contrário dos vozeirões do rádio, cantava num tom quase coloquial, com outro timbre e uma divisão rítmica mais ágil, dando uma interpretação diferente às canções. Seus primeiros sucessos foram as músicas Jura e Gosto que me enrosco, de Sinhô. Foi também o primeiro a gravar uma música de Ary Barroso, em 1929. No ano seguinte começou a gravar uma série de discos em dupla com Francisco Alves, fórmula que mostrou-se extremamente bem-sucedida que foi imitada não só por Jonjoca e Castro Barbosa, mas também por vários outros cantores. Na década de 30 tornou-se um dos maiores intérpretes de Noel Rosa, que também foi seu parceiro. Entre essas gravações está a de Filosofia, de Noel e André Filho (o autor de Cidade maravilhosa), regravada na década de 1970 por Chico Buarque.
Os casos das duplas Jonjoca e Castro Barbosa e Francisco Alves e Mário Reis não podem ser vistos como encontros esporádicos, em que um dos cantores convidou o outro para participar de seu disco, mas uma série de gravações provavelmente estrategicamente planejadas pelas direções das gravadoras – mesmo levando-se em conta que a indústria musical estava só começando no Brasil. Por outro lado eles não chegaram a se configurar como duplas de cantores, como seriam, por exemplo, Antônio Carlos & Jocafi, Toquinho & Vinícius ou Tom & Dito, na década de 1970, Kleiton & Kledir, nos anos 90 ou, mais recentemente, os cantores “sertenejos” como Chitãozinho & Xororó, Bruno & Morrene ou Vítor & Léo, que sempre (ou na imensa maioria das vezes) gravam e se apresentam juntos. Além disso, eles não foram os únicos cantores dos primórdios da indústria fonográfica a gravarem juntos. Podemos lembrar, por exemplo, ainda na década de 1930, Dorival Caymmi e Carmen Miranda cantando O que é que a baiana tem, de 1939; Francisco Alves e Ismael Silva cantando Se você jurar, deles dois e Nilton Bastos, em 1931; Carmen Miranda e Luiz Barbosa cantando No Tabuleiro da Baiana, de Ary Barroso, em 1936; a divertidíssima Boneca de pixe, de Ary Barroso e Luiz Iglesias, cantada por Almirante e Carmen Miranda, em 1938. Isso só pra lembrar algumas das canções mais famosas daquela época já tão distante de nós, mas tão presente em dezenas de regravações de outros artistas.
Como podemos ver, compartilhar o microfone (e também os palcos) é uma tradição bastante antiga da MPB, que continuou pelos anos afora, dando a quem gosta de música o prazer de encontros memoráveis – alguns em apenas uma canção, outros registrados em um show e/ou disco inteiro, como, por exemplo, a dupla Miltinho e Dóris Monteiro, em dois discos memoráveis de 1970 e 1971, Dóris, Miltinho e Charme volumes 1 e 2; ou Elis Regina e Jair Rodrigues, entre 1965 e 1967, com a série de discos Dois na bossa; ou o fantástico show de Chico Buarque e Caetano Veloso, de 1972, no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia, registrado no disco Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo; ou Chico e Maria Bethânia, em 1975, no disco Ao Vivo, registrado na temporada de shows no Canecão, no Rio de Janeiro, em 1975. Por razões técnicas, a maioria dos grandes do passado – os aqui mencionados e os que ainda não apareceram no meu texto – não têm como freqüentar as “ondas” da Escala Virtual. Mas fique de olho (ou melhor, de ouvido) aberto, porque muitos deles têm visitado a programação da rádio. Volto a falar disso daqui a pouco.
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